ReloadCSS

Caio Adorno Vassão.

Arquiteto e Urbanista.

Sou graduado e doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Pesquiso Arquitetura Móvel, Arte Contemporânea, Design de Interação e de Interfaces.

Um de meus temas de pesquisa mais recorrentes é o diálogo entre as novas tecnologias e a conformação do ambiente urbano contemporâneo. Como parte deste estudo, pesquiso metodologias de projeto para a computação ubíqua.

Recentemente, trabalhei na atualização e ampliação do Metadesign e propus a abordagem

de projeto que denominei “Arquitetura Livre” que, dentre outras coisas, pode ser considerada uma generalização da abordagem do Software Livre para outras áreas de criação e proposta, como o Design Industrial, o Design de Interfaces, a Arquitetura, a Arquitetura de Alta-Tecnologia, a Arquitetura Móvel e Flexível, o Urbanismo, assim como promove o abandono da distinção entre projeto de sistemas informacionais e o projeto tradicional (vivemos na cidade…).

Como arquiteto e designer, atuei em projeto urbano e de edificações, ilustração técnica e didática, arquitetura da informação e design de informação.

Sou Professor da Faculdade de Artes Plásticas da FAAP. E fui Professor e Pesquisador do Centro Universitário Senac.

Neste site, encontram-se diversas seções que expõem minha produção filosófica, projetual e artística.

Em blog, exponho assuntos mais correntes e comentários menos compromissados.

Em artigos, está listada e disponibilizada a maioria dos artigos que produzi nos últimos dez anos.

Em projetos, exponho os projetos ‘in progress’, que vêm sendo desenvolvidos a mais tempo e terão continuidade.

Em portfolio, exponho trabalhos relacionados às artes gráficas, artes plásticas, instalações, e arte interativa que desenvolvi individualmente ou em grupos ao longo dos anos.

Em expo, apresento a produção mais recente, assim como exposições e palestras.

Em breve planejo disponibilizar uma série de trabalhos gráficos disponíveis para compra. Estes aparecerão na seção expo.

Contato.

Todas imagens, textos e comentários© Caio Adorno Vassão.

Todas as imagens e textos foram produzidos por Caio Vassão entre 1994 e 2010. Salvo quando notificado.

 Cultura de Projeto…

pro mundus

Continuo a questão do projeto…

O projeto é, sempre, um agenciamento de potencialidades, ou melhor, virtualidades: a determinação de um futuro nunca é possível, apenas o agenciamento de potências que estejam disponíveis.

A noção determinista de projeto pode apenas fazer sentido do ponto de vista de uma mentalidade instrumental, estritamente cientificista, que crê que toda realidade é, antes de tudo, o produto de uma determinação, de um “grande projeto” concebido, provavelmente por “deus”. Não acho nem um pouco estranho que exista tanta coincidência entre mentalidades religiosas e científicas.

Considerando a noção antiga, e bastante crítica e podersa, da Arte, a determinação específica não é possível: a Arte, sendo do domínio do “possível”, da potência, e não do “necessário”, da repetição de uma ordem pré-existente, pode apenas falar de possibilidades, entendidas, segundo a abordagem pós-estruturalista, como “virtualidades”.

Concretamente, o projeto da “cultura de projeto” é a manipulação de entidades complexas, prenhes de fluxos e mutações. Como popularizou Levy, o “virtual” é o agenciamento de fluxos, e não a determinação de um futuro. Esse segundo caso seria o domínio da relação entre a “possível” e o “real”: o projeto, entendido como “desenho técnico”, indica um futuro em “possibilidade” — a concretização daquele futuro específico é a “realização” do projeto. A noção “virtual” de projeto, à qual aludo aqui, trata de uma relação mais complexa: novamente, como nos disse Levy, é “a relação entre a semente e a árvore”, de múltiplos clones de um embrião, miríades de variações emergem, diferentes o suficiente para percebermos a individualidade de cada uma — seu desenvolvimento vivo confere essa individualidade.

A cultura de projeto reconhece essa multiplicidade, e aceita que sempre emergirão variações inesperadas, e abraça-as, como fatos de uma concretude. É essa concretude que a mente instrumental quer erradicar, procurando pela confirmação de um “céu de idéias” perene, anterior e posterior à humanidade, a mim e a você. O projeto determinista é, sempre, a transposição de um conceito que é tido como dado, e não como a criação de uma nova realidade. Mas, creio que isso é impossível. Assim sendo, a noção determinista de projeto pode apenas ser aquilo que denonimo “determinismo indireto”: uma manobra difícil e convoluta que permite que a mente instrumental trate de virtualidades, convencida de que trabalha apenas com a relação “possível/real”. (É o mesmo caso da “emergência retroativa”: os teóricos da Emergência começam a rever toda a história humana, a tecnologia, os sistemas sociais e de governo, os arranjos culturais e a arte, e começam a questioná-los como sistemas complexos dotados de propriedades emergentes, e não fruto de planejamento centralizado, por mais que essa descrição possa parecer a mais sensata.)

É por isso que a cultura de projeto pode apenas ser colaborativa: o virtual se completa no “atual”, aquilo que “existe em ato”, como dinamismo concreto do devir vivo — e mesmo que o trabalho seja individual: o indivíduo se vê como parte de uma tapeçaria social e cultural. Ou seja, a atitude projetual pode apenas ser uma das duas: ou o projeto de entidades complexas, o qual abraça a variabilidade e multiplicidade do concreto, ou a tentativa de um “determinismo indireto”, que procura corrigir o curso das emergências, de maneira que o “resultado” se assemelhe ao máximo à entidade visualizada inicialmente no projeto determinista.

Obviamente, não é obrigatório ser exclusivista na ativação de uma abordagem ou outra. E, na verdade, creio que o diálogo entre ambas é um que promoverá ainda muitas riquezas. Além do que, não posso dizer que erradiquei de mim mesmo a “mania de erradicar”…

 Cultura de Projeto

desdobramentos

O projeto tem uma vida completamente diferente da imagem. Ele não é simplesmente uma imagem, uma figuração, uma detecção ou uma predição de uma realidade. Mesmo que ele se reporte a uma realidade ulterior, seja uma referência de uma realidade a ser feita, ele acaba por ser uma realidade própria, um repositório de intenções, sempre dinâmico e rico de significados.

Essa noção de projeto é Arte. Mas não a arte de galeria, a arte enquanto fruição estética controlada em ambientes controlados – aquela arte resultante da Fratura Romântico-Positivista. É a grande Arte da produção do mundo, da criação de artefatos, da positivação de entidades que nunca poderiam ser delimitadas por disciplinas científicas, filosóficas ou profissionais. A Arte enquanto uma realidade própria, dotada de carga estética, funcional, tecnológica, cultural, corpórea, crítica – em suma, Viva.

Este projeto-entendido-como-Arte é uma entidade complexa, irredutível, sempre em mutação. Falamos de “meta-objetos”, ou ainda em “meta-espaços” – o projeto é isso, e muito mais.

A noção ainda praticada de projeto nos meios profissionais derivados das artes aplicadas e da arquitetura é uma noção pífia, minúscula, de projeto: projeto enquanto determinação de uma realidade em potencial. A noção de projeto, própria da “Cultura de Projeto”, é um projeto enquanto virtualidade, que se faz sempre enquanto atualidade – sempre enquanto devir, enquanto fluxo de impulsos e sua coagulação provisória em entidades de referência.

A construção do futuro da humanidade depende da “Cultura de Projeto”. Hoje vemos a conseqüência de delegar-se a criação do ambiente construído ao pensamento instrumental: sabe-se disso há pelo menos oitenta anos, mas ainda patina-se nesta dúvida. O projeto de engenharia, enquanto exclusiva determinação de localização de massa e energia para a compleição da “máquina urbana”, é um excretor de construções/destruições, e pouco mais. A justificativa da construção do conforto é apenas uma pátina funcional, que sustenta a construção da “prisão urbana” em que nossas cidades de converteram: mais confortável para ser mais tolerável. Mas isso não precisa ser assim. O projeto pode ser mais que isso, e a engenharia é parte de um tecido social mais amplo.

A “Cultura de Projeto” encara a construção do ambiente como uma tarefa grandiosa e responsável – e sabe que ela só pode ser enfrentada com humildade: toda e qualquer proposta é sabida enquanto provisória, temporária, uma tentativa de construção de mundo; portanto, deve-se ser leve, sensível, coerente. Tais demandas em muito suplantam a competência cognitiva, a construção estritamente ou exclusivamente racional e consciente da realidade. A “Cultura de Projeto” encara essas tarefas com a amplidão da psique, e não com certidão ingênua e estreita da ciência normativa enquanto instrumentalização do mundo.

Assim sendo, a “Cultura de Projeto” não pode ser avaliada pelas outras áreas do pensamento, como a filosofia, as ciências, a legislação. Pelo contrário, o Projeto é um campo de choques e construções que de tudo toma, e para tudo dá. Isso é óbvio para qualquer um que encare os fatos da vida urbana, atual ou histórica: construir o mundo nunca foi e nunca será tarefa para a mente exclusivamente racional e/ou estritamente mecanicista, sempre seremos “driblados” pelo mundo, sempre estaremos aquém da complexidade inerente à realidade, sempre seremos uma sombra da vida possível, da grande vida prazerosa e dolorosa da profundidade do ser – sempre que acharmos que “projetar” é simplesmente planejar, que é apenas dispor da maneira mais aprazível, ou ainda que é apenas maximizar materiais, energia, ganhos. O mundo é tudo isso – mas é, ainda, muito mais!

O Projeto é um Nexo, uma realidade própria que extrai e reporta-se a outras realidades paralelas, transversais, oblíquas, reflexas e diversas. Antes de mais nada: o espaço – a construção do espaço. O espaço edificado nada mais é que um dos casos de espaços projetáveis. Os meta-espaços da política, da jurisdição, dos territórios, das disputas e colaborações, são também espaços de projeto: feitos como projeto, e também onde ocorrem projetos.

Se podemos resumir a “humanidade” diríamos: “Homo Telos”. A teleologia, a capacidade de ver à distância, reconhecer entidades reais, imaginadas e propostas. O projeto enquanto “lance”, lançamento, o projétil. Mirar e acertar. Capacidade inata. Será muito reconhecer ali nossa substância? O que meramente “acontece”, sem a interferência do projeto, da “previsão ativa do futuro”, é muito pouca coisa. Milhares, milhões de projetos compõem a vida mais banal – o que dizer da vida mais realizada, mais satisfeita: ainda mais projetos? Realizados ou não. Até os irrealizados direcionam a vida: mudam o modo como vemos as coisas, as possibilidades. E ainda, a indeterminação, ou “indetermininabilidade”, da vida concreta é um campo de imbricamento de projetos. Mesmo a práxis, não poiética, é um campo de micro-projetos. É como na fenomenologia: ver já é construir. E essa é uma noção ampla e difusa de projeto – não estamos falando do projeto instrumental, estritamente determinista: a previsão do futuro enquanto aferrar a realidade a um desejo unitário e simplista; mas sim de um projeto que abraça a complexidade e a multiplicidade, sendo assim um processo aberto.

Portanto, qual a importância do Projeto? Me parece que enorme. Mas pouco se faz à altura dessa importância: parece ser hobby de boa parte dos projetistas (arquitetos, engenheiros, designers) diminuir essa dimensão do projeto. Incorporar elementos de disciplinas pequenas e mesquinhas como se fosse a última chance de validar-se perante uma ditadura da ciência normativa – a qual se coloca cada vez mais como uma nova religião. A competência inata do “lançar”, projetar, é colocada como incógnita – como realmente o é – e com o medo do desconhecido, tenta-se contorná-la, sem assumir sua dimensão completa, sempre tentando-se colocá-la em segundo plano, em relação à primazia de uma ciência régia que torna nossa vida cada vez menos válida.

Hoje, a “Cultura de Projeto” é vista pelo establishment acadêmico como “ciências sociais aplicadas”. Uma denominação que encerra todo o medo da potência que é inerente ao projeto. Escondida nos recônditos dos labirintos burocráticos da academia redutora do mundo a bônus profissional do pesquisador padrão, o projeto se reduz a uma tentativa frustrada de ser uma ciência menor – um derivado menor de uma ciência menor (e assim são consideradas as ciências sociais, atualmente). Que pequenez, que mesquinhez!: a vida que todos vivemos é produto do projeto – casas, roupas, veículos, utensílios, mobiliário, dispositivos computacionais, urbanidade, paisagem,… Mesmo assim, o “Projeto” é uma área menosprezada pela inteligentsia que legisla sobre o que pode ou não ser sabido, categoricamente.

Sendo assim, devemos dedicar atenção ao modo como o Projeto é considerado pelas instituições de ensino ou pesquisa! Pois, serão ali que as gerações futuras aprenderão o que é “projeto”. Ou então, se manterão sempre à margem de um oceano de realidades potenciais, sempre repetindo uma coreografia de projetos conhecidos e “meta-espaços” recalcados, um eco infinito das dimensões menores de uma atividade que define nossa própria existência.

 Arquitetura, Mobilidade, Ambiência e Tecnologia.

montagem CAS_

Quando recebi a encomenda de Alécio Rossi para a criação de uma peça para sustentar a exposição “Senac Faz Arquitetura”, fui surpreendido pela demanda: uma estrutura o mais leve possível, de montagem rápida e ágil, e que dialogasse com a herança tecnológica, estética e cultural da chamada “Arquitetura Móvel”.

Minha pesquisa vem tratando especificamente da possibilidade de um ambiente urbano em que a transitoriedade seja uma característica bem-vinda, e não apenas um empecilho à “boa arquitetura”. A Arquitetura Móvel procura participar de um ambiente urbano que compreende ser temporário, inacabado, aberto a intervenções. Os chamados “eventos culturais” – exposições, shows, espetáculos, museus, etc. – envolvem a multiplicidade e a transitoriedade que são inerentes à vida. Os espaços de exposição são, em si, uma das maiores demandas pela arquitetura móvel, flexível e/ou adaptável. Alguns dos sistemas construtivos mais versáteis e, por outro lado, menos adequados à sensibilidade ambiental como configurada em nossa cultura contemporânea, são aqueles comuns nas estruturas de sustentação de eventos: andaimes, montantes, praticáveis, sistemas estruturais comuns em feiras e exposições, e tão desprezado pelos arquitetos e cenógrafos, e com toda razão – dado o papel auto-imposto de “inexpressivo suporte de imagens e ambientes temporários”.

O desafio foi o de propor uma estrutura portante que, além de sustentar mecanicamente as belíssimas imagens da exposição, fotografadas por Gal Oppido, também criasse uma ambiência adequada, apresentando um discurso arquitetônico contemporâneo e crítico. A imagem que norteou o projeto foi o da arquitetura contemporânea acolhendo a herança modernista e eclética da arquitetura estabelecida tradicional.

A proposta sintetizou-se em um conjunto de tetraedros tracionados que articulam-se em um ambiente estendido, superando a mera sustentação das imagens. Cada tetraedro é composto por hastes de madeira associadas por pequenas peças de aço, que se fixam mutuamente por meio de cabos de aço revestido, compondo um poliedro tênsil. Essa estrutura suporta uma série de “varais” nos quais penduram-se as fotografias. O espaço resultante é, apesar de geometricamente regular, inadvertido à sensibilidade tradicional, que espera o arranjo ortogonal dotado dos alinhamentos familiares, confortáveis à visão treinada, desde a infância, pela ambiência urbana estabelecida. Essa abordagem arquitetônica promove uma ambiência diferenciada, voltada para a composição de espaços visualmente inusitados, e promove a sensação de acolhimento provido por uma cobertura não hermética, como sob as copas de árvores.

montagem _CAS_mau_montel

(foto: Maurício Montel)

Buckminster Fuller desafiava o público de suas palestras a adivinhar o peso do edifício em que se encontravam, e contrastava a provável ignorância dos engenheiros e arquitetos, quanto a isso, com o domínio técnico e prático que engenheiros navais e aeronáuticos – assim como os pilotos – da massa deslocada de seus navios e aeronaves. A massa total deste espaço expositivo é de menos de 700kg, fornecendo cobertura para uma área de 180m2, aproximadamente (sendo que mais da metade dessa massa está nas sapatas de ancoragem; a massa total dos tetraedros é de 300kg, aproximadamente). A mesma área coberta, se estruturada em alvenaria, superaria uma massa de 100 toneladas, mesmo sem paredes ou fechamentos.

Essa comparação simples, mesmo que impressionante, pode parecer apenas uma questão técnica, mas é concretamente, e primeiramente, uma questão econômica. Em segundo lugar, uma questão ecológica e de sustentabilidade ambiental. Em terceiro, uma questão perceptual, estética e, em suma, cultural.

É possível que, no futuro, venhamos a colocar a alvenaria estrutural, entendida como panacéia para a construção do ambiente, no mesmo conjunto de práticas muito criticáveis em que colocamos o motor a explosão e o automóvel. O espaço urbano conta com a ilusão de perenidade da construção civil tradicional, e compreendemos o ambiente urbano como um dado, um cenário estático, sobre o qual desempenhamos nossa vida, não como um campo de ação participativo e coletivo. Creio que essa passividade advém, em parte, da imobilidade do ambiente, a qual comparece em todas as esferas da vida urbana – desde a estrutura jurídica (“bens imóveis”), e práticas arquitetônicas do vernáculo contemporâneo (“alteração” do ambiente como sinônimo de “demolição” de elementos arquitetônicos), compondo a cosmologia urbana estabelecida (“cenário” e não “campo de ação”).

Muito além de ser uma questão tecnológica, a mobilidade da arquitetura e do ambiente urbano é uma questão cultural, perceptual e poética. Esta foi uma oportunidade de apresentar um exemplo, mesmo que sucinto, da arquitetura que provavelmente acompanharia uma mudança da cultura urbana para um modo mais afeito à transitoriedade.

montagem bienal

Ficha técnica:

Projeto: Caio Vassão.

Produção, Coordenação de Fabricação e Montagem: Marília Silveira.

Protótipo: Dalton Nunes, Maurício Montel e Caio Vassão

Fabricação: Maurício Montel, Dalton Nunes, José Almino e Mauricio de Souza.

Coordenação de Montagem: Erik Klaus, Mauricio Montel, Marília Silveira.

Montagem: Erik Klaus, Paulo Band, Maurício de Souza.

 GUIs e Ubicomp.

Ponte-Manobra_3

[…] Apple tries to fix [the old GUI] by adding, and adding, and adding instead of rethinking. It is gone from insanely great to insanely gross. […] Instead of interface architects, Apple has been infested with decorators.”

Jef Raskin (1943-2005)
Entrevista para a MacUser (2004).

Se esse é o caso quanto ao GUI (graphic user interface) do Mac, o que dizer do Windows?

Minha sensação é que estamos presos em um paradigma de interação que já alcançou seus limites, e estamos espalhando sinais de trânsito, post-its de lembretes, enfeites e guirlandas para diminuir a sensação labiríntica que os GUIs oferecem hoje…

Me parece que seria necessário mudar o ponto de vista do que “é interagir cotidianamente com um PC”, e inventar uma nova abordagem de interação que incorporasse o “velho GUI” em um ambiente mais sofisticado.

Em geral, promovo a abordagem embasada em ancorar na realidade cotidiana, em si, meios de interação. Ou seja, creio que outra abordagem de interação não esteja em repensar o “espaço da tela, meios de acessar arquivos, organizar documentos e listas”, mas “sair inteiramente” do paradigma estabelecido, depositando sobre o espaço, a arquitetura e o ambiente vivencial meios de interação homem-computador.

Hoje em dia, alguns chamam isso de “Computação Ubíqua”. Creio que, no futuro, chamaremos isso de “Ambiente”.

 Deus Ex Scientia

dinosauro

 

O famoso fresco da Capela Sistina, de Michelangelo, com Adão reclinado, esperando ser ungido por Deus, que se estica todo para alcançá-lo.

 

No Museu de História Natural de Los Angeles, existe um evento chamado “Dinosaur Encounters”, em que “dinosauros passeiam entre os visitantes”: atores (mímicos) utilizam um animatronic parcial (pois boa parte do movimento é do próprio corpo do ator), e causam espanto nos presentes, em especial, as crianças.

 

A cena, por algum motivo, me parece ter significado especial: a mãe que estica a mão para tocar o dinosauro, reconfortando a criança no carrinho de bebê… Não sou grande conhecedor de paleontologia mas, pelo que sei, ainda não existe teoria definitiva sobre o que eram os dinosauros, ou como eles viviam. Da última vez que verifiquei, acreditava-se que os dinosauros não estão estintos, pois alguns de seus descendentes, os pássaros, ainda encontram-se entre nós.

 

O “dinosauro” que se estende para cheirar o bebê é um objeto da imaginação, assim como Deus, diria um ateu. “Tocar a transcendência!”… A ciência, como peça da indústria cultural, excreta imagens, crenças, mitos e, principalmente, memes — mas tenho certeza de que Dawkins discordaria que a ciência se propaga como os memes, sendo que ele despreza toda forma de religião que, para ele, são memes das mais contagiosas…

 

Em outras oportunidades, já insisti que “a Ciência diz a Verdade, mas não Toda a Verdade”. Verdades múltiplas, significados vagos. Mas a ciência se propaga como parte da Indústria Cultural, a isso atesta a grande popularidade dos museus de ciência, e do evento “Dinosaur Encounters”, em particular. Na maior parte do tempo, a Indústria Cultural não incentiva o aprofundamento no conhecimento científico, apenas divulga “a última descoberta” ou, pelo menos, “a descoberta mais bombástica do momento”, que se propaga por ‘contaminação’ e anedotismo, memes…

 

Como diria Nietzsche: o roteiro é o mesmo, só mudam os atores…

 To Search or not to Search…

composição para-simétrica 12

Recentemente, Stephen Wolfram, criador do popularíssimo software de análise e desenvolvimento matemático denominado “Mathematica”, começou a divulgar uma nova iniciativa, o sistema de “Conhecimento Computacional” denominado “WolframAlpha”.

 

O sistema tem sido divulgado, e analisado (avaliado), como um sistema de busca (Search) muitíssimo mais sofisticado do que qualquer coisa disponível hoje em dia, certamente muito mais avançado que o Google, que alguns chamam de “Concurso de Popularidade Automatizado”. Ou seja, pouquíssima “inteligência”, ou como Wolfram nos diz, “computação”, sofisticada é utilizada em sistema de Search simples.

 

Wolfram insiste que seu sistema não é um “Search”, mas um “computational knowledge engine” – “sistema (engine, ‘motor’, ‘dispositivo’, etc.) de conhecimento computacional”. Ele diz isso porque seu sistema não faz um “Search”, mas sim uma complexa computação a partir de vastas bases de dados distribuídas (na Web, e em outros repositórios). Os detalhes dessa “computação” ainda estão nebulosos: Wolfram quer manter a coisa em segredo, porque ainda não decidiu como a colocará no mercado; e já está fazendo um tour de demonstrações.

 

Creio que há um erro semântico aí… E ele é bastante explícito. O sistema está sendo divulgado como um grande competidor aos sistemas tradicionais de Search (’busca’), mas mesmo Wolfram nos diz que ele não faz uma busca, mas sim correlaciona um vasto banco de dados e produz computações bastante avançadas, dependendo do tipo de pergunta que se faz ao sistema (dá pra ter aquela sensação Science Fiction de “perguntar ao computador”, e ele responder…).

 

Ou seja, o Wolfram Alpha tem relação apenas marginal com os sistemas de busca. Ele é uma tremenda inovação, e vamos ainda ouvir falar bastante das conseqüências epistemológicas das assunções de Wolfram.

 

A grande questão me parece uma que permeia a Web, e suas origens: desde Vannevar Bush, um “sistema de agregação de informações de indexação e interrelações internas de teor arbitrário” (inicialmente denominado Memex) foi proposto porque reconheceu-se os limites da formalização lógica como resposta para a organização do conhecimento. Em outras palavras, a falência do modelo formalista de matemática indicou que fundamentalmente um sistema formal de agregação e correlação do conhecimento estaria além do horizonte de possibilidades da epistemologia. A saída encontrada não foi em procurar por mais um estrato de formalização, um suplemento formal que daria conta da complexidade, contradições e vastidão do conhecimento científico (sem falar do não-científico). Mas sim um sistema “para-formal” de agregação, indexação e correlação de informações, imagens e, posteriormente, sons, animações, interação, etc.

 

Na década de 1960, Ted Nelson cunha o termo “Hypertext”, para indicar uma variação neste tema, incluindo a proposta de que o sistema seja auto-regulado e que as infinitas revisões, disjunções, composições e entrecruzamentos do hipertexto fossem acompanhadas por um sistema informacional automático. Em fins da década de 1980, uma das primeiras implementações desse conceito, o Hypercard, programado por Bill Atkinson, é lançado pela Apple para o Macintosh, sendo uma versão muito, e assumidamente, simplificada do Hypertext de Nelson (um dos motivos para usar o termo “card”); mas o princípio da organização arbitrária, ou seja, para-formal, lá estava. No início da década de 1990, Tim Berners-Lee propôe o conceito da World Wide Web, em muito baseada no Hypercard de Atkinson, mas muito influenciado por Nelson e Bush. A WWW é, certamente, o serviço mais alastrado e popular da Internet, sendo que o próprio funcionamento hipertextual da Web é o que a torna tão apropriável e “alastrável”.

 

Certo. O quero dizer é que existe uma divergência aí: por um lado, os sistemas de Search, como o Google, partem do princípio de que está-se lidando com um vasto, complexo, contraditório, paradoxal, fragmentado e plural campo de informações que é a Internet pós-Web. Por outro lado, vemos um cientista crente na possibilidade da formalização absoluta do conhecimento, sendo que considera que o próprio universo é um Automato Celular; construindo um sistema epistemológico baseado nessa assunção.

 

Creio que existe uma carência filosófica nesse debate. E que, se houvesse maior cuidado, ficaria claro que o WolframAlpha é um poderoso sistema de correlação formal-matemática de dados “sob curadoria” (”curating”, como diz Wolfram), ou seja preparados para essa “computação produtora de conhecimento fomal”; e que sistemas de Search estão ligados a outra linha epistemológica, outra concepção do que venha ser conhecimento, banhando-se em um vasto universo, muito além das ilhas de formalidade que chamamos “ciências duras”.

 

Uma maneira fecunda de compreender isso é por meio dos “níveis de abstração”: em um nível de abstração (da programação , automação e telecomunicação), o hipertexto é um sistema formal-computacional, enquanto em outro nível (o da percepção do usuário e uso cotidiano) ele permite associações e disjunções sem que exista uma fundamentação lógico-matemática para sua existência. O “hiper-escritor” sobrepõe textos de acordo com critérios aquém e além da formalização.

 

(Imagem no início do Post é uma gravura de matriz digital, “Composição Para-Simétrica no.12″. Um exemplar de uma linha de gravuras que se baseia em um procedimento para produção de complexidade: opera-se a composição de elementos simétricos por meio de operações disjuntivas de simetria, procurando chegar a uma macro-composição Não-simétrica.)

 Sol Power!

espelho_parabolico_1

Fala-se muito de como a tecnologia para a energia solar ainda está engatinhando. O que se quer dizer com isso? Bom, em geral, se alude à tecnologia de semi-condutores que é capaz de converter a radiação solar diretamente em energia elétrica, do fluxo de fótons ao fluxo de elétrons, diretamente. As prosaicas placas ou painéis foto-voltaicos.

 

Luminares como James Lovelock, propositor da hipótese Gaia, desprezam a energia solar justamente devido à complexidade industrial (fabricação) e manutenção de dispositivos fotovoltaicos.

 

No entanto, a energia solar já é utilizável hoje, com o uso de tecnologias relativamente simples, de fácil fabricação e manutenção. Isso, sem falar da verdadeira revolução (ou “conflagração”) que cerca o uso de painéis de células foto-voltaicas.

 

Por um lado, com o acoplamento de espelhos a motores Stirling obtém-se resultados muito satisfatórios, com uma tecnologia essencialmente simples: uma máquina térmica (motor stirling) recebe os raios solares concentrados por espelhos parabólicos ou de uma grande quantidade de espelhos planos. Em ambos os casos, redireciona-se a radiação que incide sobre uma área de insolação relativamente grande para a pequena extremidade “quente” do motor de stirling que, por sua vez, impulsiona um dínamo. Existem muitas variações sobre o tema, e plantas de geração de eletricidade a partir da concentração de raios solares já estão em operação na Espanha, Califórnia e Alemanha.

 

Por outro lado, um documentário recentíssimo, “Here Comes the Sun”, relata a explosão da tecnologia, e do mercado, relacionados às células foto-voltaicas. A Alemanha está passando por uma “revolução solar”, instalando freneticamente painéis solares nos telhados – negócios como o “aluguel de telhados” são das atividades mais “quentes” do momento…

 

Ou seja, a obviedade da energia solar finalmente é alcançada pelas “brilhantes mentes” do “energy business”. Calcula-se que uma área equivalente à da França, de painéis foto-voltaicos instalados no deserto do Saara seriam suficientes para atender a totalidade da demanda de energia global atual!! Ou, observando-se a questão em outra escala, 10% dos telhados da Alemanha seriam suficientes para atender a totalidade da demanda daquele pais!!

Um fato impressionante é que a Alemanha não é um pais especialmente propício para a coleta de raios solares: alta latitude, poucos dias ensolarados durante o ano, invernos rigorosos… No entanto, prevê-se que, na próxima década, a Alemanha já será um pais cuja energia será de origem predominantemente solar!!!

 

Por que esse movimento não começou antes?
Como diz Herman Scheer, um dos luminares alemães da energia solar, no documentário “Here Comes the Sun”: “Os especialistas em energia [fóssil, nuclear, eólica] são parte do problema, não da solução! [por causa da sua fixação em um modelo centralizado de geração e distribuição]”. Em outro momento, cita Schopenhauer: “Primeiro, todos dizem como sua proposta [a energia solar como solução geral] é absurda, e nunca poderia funcionar. Depois dizem que a idéia é aceitável, mas existem muitos obstáculos para sua concretização. Por fim, dizem que eram todos a favor da idéia, desde o início!”…

 

É bom frisar que a transição para uma matriz energética distribuída e inerentemente mais igualitária não deve ser das mais pacíficas, certamente envolvendo uma boa dose de confrontos em política econômica.

 

Sol Power!

 Pocket Car, Transportes Leves, Colaboração, e Outra Urbanidade.

Imagine uma cidade em que as ruas não fossem barulhentas. Em que o espaço público fosse um entrecruzado de parques lineares, verdejantes, entrecortados por cafés, restaurantes, lojas, feiras, praças e anfiteatros. Em que o pedestre pudesse circular livre de preocupações. Em que os veículos motorizados se deslocariam em velocidades controladas, percebendo a presença dos pedestres. Do ponto de vista tecnológico, essa possibilidade é concreta. Já, do ponto de vista cultural… essa possibilidade ainda é de difícil aceitação, sendo que a própria imaginação está sob o domínio de modelos ultrapassados.

 

Esse é o principal esforço do projeto Pocket Car: tornar palpável essa possibilidade, divulgar amplamente as questões inerentes a ela, promover e popularizar este debate.

 

Neste sentido, apenas podemos receber um projeto como o Puma com grande satisfação, pois significa uma decisiva contribuição para a popularização necessária ao debate em questão. O Puma indica definitivamente que a questão da mobilidade pessoal atingiu uma encruzilhada (sem ironias…): ou percebe-se que os deslocamentos diários de certas parcelas da população podem e devem ocorrer em meios de transportes realmente proporcionais à escala humana, ou a mobilidade pessoal vai continuar sendo uma das principais vilãs da péssima qualidade de vida que consideramos inevitável nas grandes cidades.

 

Como dizem: esta questão é parte de nosso Zeitgeist, o “espírito da época”. Quando você vê algumas pessoas falando de um mesmo assunto, pode ser coincidência. Quando vêm muitas pessoas, pode ser uma moda. Quando a grande mídia, os acadêmicos, a sociedade, a economia, etc, estão envolvidos com a mesma questão, uma mudança deve estar prestes a acontecer.

 
Quem tiver interesse em obter mais informações ou participar do projeto Pocket Car, entre em contato:contato@pocketcar.org, e visite nosso portal: pocketcar.org
 

 Pocket Car, GM, Segway, Indústria, Cidade, Colaboração,…

Há alguns dias, começamos a receber uma torrente de emails, nos comunicando a recém divulgação do projeto conjunto entre a grande montadora General Motors e a empresa fundada por Dean Kamen, a Segway. O joint-venture estava divulgando o projeto P.U.M.A., “personal urban mobility and acessibility” (“mobilidade e acessibilidade pessoais urbanas”). A contínua série de emails foi tal, que decidimos postar um comentário especial, e mais longo, a respeito do Pocket Car. Agradecemos a todos que nos enviaram as notícias e, em especial, a alguns – como Cleiton Capellossi – que garimpam a Web com maestria.

 

Ficamos extasiados: a GM, grande montadora à beira da falência, abertamente criticada por contribuir decisivamente para a aberrante ascensão dos SUVs como modelo de mobilidade urbana pessoal, “fez par” com a Segway, pequena empresa de inovação, e estavam lançando um conceito de mobilidade pessoal que muitos dos contatos e participantes do Pocket Car sugeriram como modelo (em especial, cito o projeto amplamente especulativo de Dinard da Mata, enviado para o Prêmio Design Quatro Rodas).

 

Bom, para quem vem acompanhando o Pocket Car, o projeto Puma tem tantas características similares que dá para pensar: “qual o futuro do projeto Pocket Car?, já que um veículo muito parecido já está disponível” – se não imediatamente, certamente no futuro próximo.

 

Mas, como a maioria já sabe, nossa questão não se resume ao veículo, mas estende-se para as possibilidades de melhoria do ambiente urbano a partir da adoção de uma alternativa de mobilidade pessoal radicalmente compacta.

 

Para procurar dois extremos, vamos falar dos pólos mais distantes do projeto Pocket Car: 1 – O imperativo tecnológico (físico, ergonômico, funcional, estrutural e mecânico) da configuração mínima para a mobilidade urbana pessoal, que denominamos “Pocket Car”; e 2 – A reconfiguração da cidade, tanto para viabilizar o uso de qualquer veículo compacto pessoal, como e principalmente para que ela torne-se mais adequada à escala do ser humano, denominado no jargão urbanístico pelo eufemismo “pedestre”.

Mas há, ainda, um terceiro aspecto crucial para nosso projeto: 3 – O desenvolvimento colaborativo e participativo, tanto dos veículos, quanto de soluções inovadoras para o ambiente urbano. Este aspecto escapa inteiramente a uma proposta como a do pool GM/Segway. Mais sobre isso abaixo.

 

Quanto à primeira questão (1), o PUMA é um veículo que está “além e aquém” do que é estritamente necessário para o transporte individual ou de “pares leves” (um adulto e uma criança, ou um casal de estatura mediana). Ele é mais sofisticado que o Pocket, pois mantém-se na posição vertical, não importando as variações de velocidade, frenagens bruscas, colisões, etc, o que é um pouco difícil de acreditar (no caso de frenagens bruscas, vide os diversos casos de quedas de Segway documentados na Web). Ele também está “além” porque, mantendo-se na posição vertical, não apenas resolve a questão ergonômica (do ponto de vista da relação corpórea e antropométrica) como também mantém o veículo visível, frente à manada de veículos de grande porte que predomina nas ruas (resolvendo a questão da ergonomia cognitiva); além disso, o PUMA ocuparia uma planta muito menor que o Pocket, pois não precisaria assumir a posição deitada, necessária para as altas velocidades no Pocket Car.

 

Mas o Puma está também “aquém”, e em questões que têm mais precedência. Um dos aspectos mais trabalhados no projeto Pocket Car é que o veículo deve prover segurança, com meios de proteção ao motorista e pedestre em caso de colisões, manter-se estável, mesmo em frenagens, acelerações bruscas e colisões (não “capotar”), e exigir o mínimo de energia para manter-se em uso (o PUMA, como o Segway, exige que o motor esteja em constante uso, para que se mantenha ereto). E, ainda mais crucial para a adoção generalizada de veículos dessa natureza, queremos que o Pocket seja fabricado por uma ampla variedade de empresas, e não apenas as que possam pagar os royalties ao pool GM/Segway. Mas também, ao falar-se de automação do veículo, deve-se ir além da integração de dispositivos de entretenimento e de evitar-se colisões: a tecnologia digital atual já permite que veículos como o Puma ou o Pocket Car fossem auto-conduzidos, assim como auto-localizados, liberando definitivamente o usuário do processo de condução e navegação urbana. Inovações simples, como o limite de velocidade compulsório, seriam banais. No entanto, com exceção do sistema anti-colisão e da integração de fone celular, a tecnologia digital que está presente no Puma tem por função manter o veículo em pé.

 

Uma tradição sobre a qual o Pocket vem embasando muito de sua problematização inicial é a do “Velomobile”, denominação utilizada para veículos de três rodas, carenagem e tração humana (pedal). Vemos ali o antepassado direto das características fundamentais do Pocket Car. Poderíamos simplificar, de maneira quase caricata, e dizer que o Pocket nada mais é que um “Velomobile motorizado”. Mas isso seria apenas uma parte muito pequena do projeto de um veículo viável no mundo urbano contemporâneo e futuro. Além da motorização (elétrica), é necessário viabilizar a entrada e saída simples de usuários portadores de necessidades especiais (na posição vertical do Pocket), assim como sua locomoção sem assistência (aspecto trabalhado parcialmente pelo PUMA); a comodidade e conveniência de uso devem ser comparáveis às de um automóvel tradicional, em especial, o quanto ele protege o usuário dos elementos; e, por fim, sistemas de segurança, como os “air-bags corpóreos” que viemos discutindo durante o workshop (que começam a popularizar-se no motociclismo), seriam meios de proteção ao usuário que também protegem o pedestre.

 

Mas, as características técnicas do Pocket Car seriam apenas metade da história. Mais importante para nós seriam os aspectos urbanos. O PUMA não é o primeiro veículo “extra-compacto” e de uso individual que conta com ampla divulgação e mídia. Ainda na década de 1980, o Sinclair C5, foi produzido em série e amplamente promovido pela mídia britânica. Mas, como outras opções de mobilidade pessoal antes dele, o C5 entrou para o rol das curiosidades históricas da indústria automobilística – a incompatibilidade entre os veículos pessoais compactos e a “manada de automóveis” é tal que qualquer usuário de automóveis vê-se como terrivelmente exposto, quase como um pedestre jogado no meio de uma avenida movimentada, ou em situação ainda pior, sendo menos visível. Para que opções como o C5, o Puma e o Pocket Car sejam efetivamente parte do ambiente urbano, como um meio eficaz e viável de mobilidade pessoal, mudanças drásticas devem ocorrer no que chamamos de “Ecologia de Transportes Urbanos”. Essas mudanças não visam apenas viabilizar essa mobilidade pessoal, mas também, e fundamentalmente, tornar o ambiente urbano mais adequado à sua peça mais importante: o ser humano.

 

Portanto, nossa maior preocupação é com o ambiente urbano. A proposta de um veículo mínimo de mobilidade pessoal é o meio que encontramos para questionar uma das características mais nocivas da cidade que herdamos do século XX. Essa é a cidade do automóvel de motor a explosão, 4 lugares e autonomia de 300-500 km. Outros meios de transporte mais eficazes e específicos, como o bonde de pequeno porte, o trem de longas e médias distâncias, dentre outros, foram sendo marginalizados em função de derivações do automóvel. Primeiro, veio o caminhão, efetivamente um automóvel de grandes proporções, dedicado ao transporte de cargas. Posteriormente, uma adaptação do caminhão veio substituir a ampla e sadia variedade de veículos de mobilidade coletiva – o trem, o bonde a cavalo, o bonde elétrico. A adoção generalizada dos veículos propulsionados por motores a combustão interna marginalizou meios mais adequados, os quais compunham uma “Ecologia de Transportes Urbanos” mais sofisticada, flexível e econômica, e portanto, mais sustentável.

 

Essa Ecologia de Transportes Urbanos dominada pelo motor a explosão é nociva ao ser humano não apenas pelas suas características mais óbvias – a poluição atmosférica, o aquecimento global – mas também por aquelas às quais estamos habituados, até mesmo por acreditar que não há opção: a poluição sonora, a ampla e inquestionável agressividade e violência do espaço público, a segregação entre espaço de circulação e espaço de vivência e coletividade. A rua é espaço do automóvel, da circulação, do movimento, e não da vida, da comunidade, das trocas sociais, do convívio e da diferença. Para citar apenas uma das características que foram abandonadas em função dessa ecologia empobrecida dos automóveis, a transposição da vasta maioria do transporte público para pneus pareceu uma grande simplificação, exigindo condições menos acabadas da pista; no entanto, em troca dos trilhos, ganhamos um enorme sistema de suspensão, que obriga diariamente hordas de cidadãos escalarem 1,2m para transpor os pneus e transmissão. Ou seja, o que pareceu, de início, uma troca sensata, tornou-se uma agressão e degradação cotidiana.

 

Vivemos em uma cidade composta por dutos de circulação. Dutos principalmente ocupados por veículos que deslizariam em alta velocidade, conduzidos por ocupantes que não travariam qualquer relação com seu entorno, cidadãos alienados de seus semelhantes. A falência desse modelo, com o alastramento dos congestionamentos-monstro, é palpável e inegável. Mas, mesmo assim, a promessa de velocidade, comodidade, liberdade e independência que é o automóvel mantém seu jugo sobre a imaginação da maioria dos cidadãos.

 

Promover um meio de mobilidade pessoal, conveniente, barata e segura (para o motorista e para o pedestre), significa promover uma cidade que seja mais amigável, mais adequada à vida coletiva, à diversidade, à valorização do espaço público, à sociedade, à cultura.

 

Longe de ser uma solução geral, o Pocket Car seria um modo renovado de problematizar a locomoção de pessoas e cargas pela cidade. Ele indica que é possível que opções de mínimo impacto sobre o ambiente sejam adotadas. Ele ainda critica a noção arraigada de que não existem opções pois, se essas houvessem, já teriam sido adotadas. Ele indica que pode-se partir de um repertório tecnológico amplamente conhecido e utilizado – o dos veículos a tração humana (HPVs, bicicletas, velomobiles) – para que se concebam alternativas de transporte. A adoção de tais alternativas contribuiria decisivamente para mudar profundamente a qualidade das cidades, favorecendo a escala do ser humano, suas velocidades, forças, tolerância a ruído, contato e impactos.

 

Ele indica ainda a possibilidade de maiores e mais variadas integrações entre as diversas modalidades de transportes, desde o transporte coletivo de grandes distâncias, até o transporte individual localizado de pequenas distâncias. Sendo que essas “últimas milhas” (também mote do projeto Puma) podem ser trafegadas em veículos cujos usuários não sejam seus donos: outras modalidades de propriedade de veículos de uso pessoal, aproximando-os da noção de infra-estrutura urbana. (A exemplo da popularização de sistemas de “Car-Sharing” e “bicicletas livres” na Europa.)

 

Imagine uma cidade em que as ruas não fossem barulhentas. Em que o espaço público fosse um entrecruzado de parques lineares, verdejantes, entrecortados por cafés, restaurantes, lojas, feiras, praças e anfiteatros. Em que o pedestre pudesse circular livre de preocupações. Em que os veículos motorizados se deslocariam em velocidades controladas, percebendo a presença dos pedestres. Do ponto de vista tecnológico, essa possibilidade é concreta. Já, do ponto de vista cultural… essa possibilidade ainda é de difícil aceitação, sendo que a própria imaginação está sob o domínio de modelos ultrapassados.

 

Esse é o principal esforço do projeto Pocket Car: tornar palpável essa possibilidade, divulgar amplamente as questões inerentes a ela, promover e popularizar este debate.

 

Neste sentido, apenas podemos receber um projeto como o Puma com grande satisfação, pois significa uma decisiva contribuição para a popularização necessária ao debate em questão. O Puma indica definitivamente que a questão da mobilidade pessoal atingiu uma encruzilhada (sem ironias…): ou percebe-se que os deslocamentos diários de certas parcelas da população podem e devem ocorrer em meios de transportes realmente proporcionais à escala humana, ou a mobilidade pessoal vai continuar sendo uma das principais vilãs da péssima qualidade de vida que consideramos inevitável nas grandes cidades.

 

Como dizem: esta questão é parte de nosso Zeitgeist, o “espírito da época”. Quando você vê algumas pessoas falando de um mesmo assunto, pode ser coincidência. Quando vêm muitas pessoas, pode ser uma moda. Quando a grande mídia, os acadêmicos, a sociedade, a economia, etc, estão envolvidos com a mesma questão, uma mudança deve estar prestes a acontecer.

 

Quem tiver interesse em obter mais informações ou participar do projeto Pocket Car, entre em contato:contato@pocketcar.org, e visite nosso portal: pocketcar.org

 

(Todas Imagens © Caio Vassão e Marcus Del Mastro – Imagens da Bicicleta de Carga Mike Burrows, do protótipo do projeto PUMA, GM/Segway, e do Triciclo Windcheetah foram realizadas por Caio Vassão e Marcus Del Mastro a partir de imagens disponíveis na Web.)

 Limites de Processamento.

Em uma das novelas de Asimov, da série “Fundação”, o autor descreve uma interface homem-máquina peculiar: ainda em 1980, Asimov fala sobre uma interface de controle da espaço-nave do protagonista daquele episódio da extensa série Fundação capaz de feitos incríveis. Certamente muito influenciado pela surpreendentemente rápida ascensão da computação pessoal nos dez anos anteriores, Asimov incorpora a idéia de interação sofisticada, coisa ausente na maioria da Sci-Fi anterior. Dentre as propostas estava uma interface mente-máquina, por meio do contato das mãos. Imagens, sons e posições de corpos celestes e outras espaçonaves se manifestariam na mente do piloto.

 

Sendo possível ou impossível, tal interface faria, ainda, uso de outro aspecto computacional ao qual Asimov apenas alude, mas que, de saída, me fez pensar: ele conteria um modelo completo de nossa galáxia! Pode parecer algo relativamente viável, mas vejamos as limitações inerentes a essa proposta. A aritmética simples é mais do que suficiente para esse levantamento superficial: 

A Via Láctea contém mais de 200 bilhões de estrelas. Se utilizarmos apenas 1 Kb para descrever cada estrela, o que é pouco, considerando-se que uma estrela é algo um pouquinho complicado…, para dizer o mínimo… seria necessário um banco de dados de 200 Tb. Isso sem descrever o restante do sistema em questão. 

 

Mas, se criássemos um banco de dados mais extenso, no qual cada estrela seja descrita em sua composição, tempo de vida, progressão histórica, origem, tendência futura, órbita galáctica, e também a descrição dos planetas, asteróides, luas, cometas, e outros detritos cósmicos… Bom, dediquemos 1 Mb para cada item (o que, obviamente, é pouco, teríamos pouquíssimas imagens, e de baixa resolução, ou apenas dados numéricos). Teríamos mais de 1 trilhão de entidades por sistema, ou seja 200 bilhões x 1 trilhão x 1 milhão de bytes. Ou seja, um banco de dados de 200.10e15 Tb. É… grandinho… 

 

Vamos um pouco mais adiante. Se formos compor um banco de dados um pouco mais completo, contendo uma coleção de um Gb por corpo celeste (o que ainda é pouco), teríamos um banco de dados de 200.10e18 Tb. Isso seria ainda muito pouco: missões como a Cassini (Saturno) e Galileo (Júpiter) geraram múltiplos Gb de informação bruta. E ainda, mesmo depois de processada (e portanto multiplicada), essa informação ainda não nos permite ter certeza da composição exata desses gigantes vizinhos… 

 

Estamos hoje em um estado de desenvolvimento técnico em que armazenamos informação em portas lógicas composta de bilhões de átomos. Se reduzirmos a escala necessária para o armazenamento de um bit para apenas um átomo, poderíamos compor repositórios de informação realmente monstruosos, e concretamente muito frágeis. 

 

Me parece que duas conclusões são necessárias: 1 – que qualquer repositório de informação sobre a galáxia deveria existir de maneira distribuída, e não centralizada, e 2 – que qualquer intenção de “simular” um universo envolverá alguma forma de processamento e armazenamento de informação tão extensa que torna-se impossível, do ponto de vista da concretude. Como é dito, seria necessário um espelho para reproduzir nosso universo… Isso em uma relação 1 para 1. 

 

Quanto à primeira conclusão, ver Vernor Vinge, na série Zones of Thought, em que o autor postula a existência de uma antiga e vasta rede informacional galáctica, muito similar, em termos éticos e funcionais, à Internet de fins da década de 1980. (Alem disso, Vinge ainda relaciona a geografia galáctica a uma espécie de “limitação à velocidade de processamento”, com implicações para a inteligência viva, assim como para as limitações à automação.) 

 

Quanto à segunda conclusão, muita coisa pode ser desdobrada. Em especial, me parece indicar um “Imperativo Cósmico” no sentido da produção colaborativa e à distribuição generalizada de recursos, uma espécie de aversão cósmica à centralização. 

 

Um bom modelo é sempre menor (mais simples) que a realidade representada. Os limites de processamento aos quais o modelo está sujeito começam com a elegância, economia e funcionalidade deste modelo. Mas qual é a relação numérica entre o tamanho informacional de uma entidade e o tamanho informacional de sua representação? O sonho do Pós-humano, também compartilhado pela Filosofia Analítica, é o de que essa relação é extremamente pequena. E, não apenas isso, é uma relação formal e perene. 

 

Pergunte a qualquer artista, filósofo pós-estruturalista, médico praticante, ou mesmo uma criança… É provável que qualquer um destes te diga que a relação entre modelo e realidade é tão flutuante quanto as ondas do mar… 

 Pocket Car – Últimas Notícias

 

O 1o Workshop Pocket Car foi muito produtivo!! Os palestrantes e participantes desenvolveram discussões muito conseqüentes, e acaloradas!

 

Conseguimos, ali, identificar uma série de questões prioritárias para o desenvolvimento futuro do projeto. Em março, iremos divulgar as iniciativas específicas de projeto, para desenvolvimento ainda no primeiro semestre de 2009. 

 

Nossa atividade imediata é a montagem de um repositório online a respeito de todas as questões pertinentes ao Pocket Car. Ele estará disponível no endereço http://pocketcar.org/, que hoje ainda é um simples boletim dos acontecimentos futuros relacionados ao projeto. Este também será uma plataforma para o trabalho colaborativo, que poderá ser usada pelos participantes dos projetos para discussão, forums, postagem de material, e organização de eventos. 

 

Além disso, estive, na 6a-feira, na All TV, por contato da Simone Freitas, entrevistado no programa “Pura Vida”, da Mara Prado, sobre ecologia e sustentabilidade. Infelizmente, a entrevista não está disponível para download. Mas os “ouvintes/internautas” enviaram uma série de perguntas bastante instigantes. E foi um prazer ser entrevistado pela Mara. 

 

Aproveito para convidar todos para a apresentação dos resultados do workshop. Ela irá ocorrer em 7 de março, das 10:00hs às 17:00hs. A programação será postada aqui, e no portal Pocket Car. Como muita gente não pôde participar do Workshop, devido às datas e horários, mas manifestou interesse em manter-se informada quanto aos desenvolvimentos, essa seria uma ótima oportunidade para compreender os rumos, discussões, debates e potencialidades do projeto. 

 

Aguardo todos lá!! 

 1o Workshop Pocket Car

Estamos finalizando os preparativos para o 1o Workshop Pocket Car.

 

O workshop ocorrerá no HUB , na sede paulistana da ONG. Ela fica na Rua Bela Cintra, 409 – Consolação. (Mapa)

 

O workshop acontecerá em três fins de semana:

17 e 18 de janeiro

24 e 25 de janeiro

31 de janeiro e 1 de fevereiro

 

Teremos encontros apenas nos finais de semana, dadas as insistentes demandas…rs rs rs.

 

A proposta do Workshop é questionar os principais aspectos relacionados ao projeto Pocket Car. Serão apresentadas palestras sobre os mais variados temas, desde a tecnologia de motores e baterias elétricas, até a ecologia urbana e a ideologia do automóvel.

 

Além disso, ocorrerá uma série de atividades práticas de projeto, debate, diagramática e criação.

 

Programação Completa.

 

Para inscrever-se, favor preencher a Ficha de Cadastro e Inscrição e enviá-la para contato@pocketcar.org.

 

Vejo vocês lá!

 Pocket Car!

No dia 20 de dezembro de 2008, sábado, às 20:00hs, apresentaremos o projeto Pocket Car, em desenvolvimento. Este é um projeto colaborativo, a primeira edição da iniciativa Outra Urbanidade. A apresentação será no Teatro do Centro da Terra.

 

Aguardo todos os interessados na discussão multidisciplinar relacionada ao papel do automóvel na conformação do ambiente e das práticas urbanas; além dos interessados em tecnologia digital e seu papel na reconfiguração do ambiente urbano contemporâneo; dos ciclistas e ativistas do transporte à tração humana; e por fim os designers e engenheiros do universo automobilístico.

 

A proposta é compreender as possibilidades tecnológicas de um veículo verdadeiramente individual, desde no repensar de sua estrutura portante, passando pelas tecnologias de tração, e envolvendo o controle e interação digital, passando a compreender o automóvel definitivamente como parte da computação ubíqua.

 

Além disso, parte integral deste projeto é a possibilidade de “Outra Urbanidade” que não seja tão afogada, em todos os sentidos, pelo dito “rodoviarismo”: quais são as modalidades de espaço público que podem ser resgatadas e/ou criadas a partir desse “desafogar”? Nossa proposta envolve o veículo individual pois essa modalidade de locomoção urbana é, para bem ou para mal, vinculada às práticas terceirizadas e quarteizadas do ambiente urbano contemporâneo.

 

Clique aqui para saber mais.

 Música como Design

Estou relendo a biografia do Frank Zappa (The Real Frank Zappa Book), um dos três “Franks” que influenciaram profundamente minha vida… O segundo é Frank Lloyd Wright. E o terceiro é óbvio…

 

Tanto o Zappa como o Wright fizeram parte do meu primeiro ano na faculdade: lembro de terminar meu trabalho sobre o Wright, incluindo a famigerada maquete do Johnson Wax Company ao som do álbum Sheik Yerbouti, de Zappa.

 

O Zappa é uma influência tão importante na minha vida criativa por causa da atitude dele: desde a iconoclastia, até a extrema liberdade com que propunha de tudo, da música, passando pelos arranjos e pelo cinema, tecnologia, etc. (Algumas pessoas sabem porque me sinto um “agente duplo”…).

 

Bom, o nome do post é referência à proposta que faço: uma Teoria Geral do Design (Projeto) só poderia estar completa se levar em consideração o modo como o mundo ocidental, e parte do oriental, compreende a composição musical.

 

E aí, tenho uma discordância profunda com Zappa, na verdade com a vasta maioria dos compositores, músicos, e quase todos aqueles que vivem da e na música: Zappa insiste, como praticamente todos os compositores que conheço, que o que os músicos tocam, e você escuta, não é a música. Música é o que está escrito no papel… Ou seja, “música” é o conceito musical estabelecido enquanto uma seqüência de instruções codificadas em uma notação altamente formalizada e cifrada. A “performance” é apenas uma tentativa de alcançar a perfeição da música como notada na cifra.

 

Discordo. Mas é justamente essa afirmação de Zappa, que confirma tantas outras proferidas por outros músicos, de tantas maneiras diferentes, que permite que consideremos Música como Design. A música gradualmente abandona sua característica da Arte quando começa a ser tratada como composição, como notação de um conceito musical, e passa a significar apenas aquele conceito musical. Na verdade, é necessária toda uma purificação da concretude, e portanto de suas características instrinsecamente artísticas, da música para que ela se transforme em Design.

 

Creio que estamos defronte, inclusive, do ponto que permite a distinção entre Arte e Design, e da necessidade de se incluir o segundo como apenas um dos casos especiais da primeira.

 

Retomemos: em Design, a noção de finalidade é absolutamente proeminente, enquanto em Arte, essa noção é absolutamente relativizada pela concretude e sua expressão. No entanto, quando fala-se de um expressão “correta” para uma composição, está-se referindo a um plano abstrato de considerações que passam a fazer parte daquela obra. Quando esse plano abstrato é parte da obra, ou seja, pode ser tratado também como Arte, bom, temos Arte. Quando esse plano torna-se apenas uma ferramenta para a concretização de algo como “anotado”, ou seja, de acordo com uma norma de notação, bom, temos Design.

 

Bom, na verdade, essa conversa é bem mais longa. E creio que apenas com uma abordagem em “níveis de abstração”, própria do Metadesign, é possível compreender como boa parte da Arte contemporânea trafega entre o que seria propriamente Arte e propriamente Design.

 

Creio que como Zappa era concretamente e inteiramente um artista, apesar de todo o blá-blá-blá ideológico que fez parte de sua vida verborrágica, suas improvisações (que ele chamava de “composições instantâneas”) são prova da concretude da música enquanto performance. E, graças à “mágica das comunidades e da tecnologia das redes digitais banalizadas”, temos o que creio ser uma de suas maiores composições instantâneas no Youtube. Escutem “Rat Tomago”.

 Eleições…

Um(a) prefeito(a)…

 

Fala-se muito de “quem” deve receber nossos votos. Será que o “quem” importa muito? Ou será que o “grupo” (partido) do qual vem o “quem” (candidato(a) em si) seria mais importante?

 

O cubo abaixo contém 27 milhões de pequenos cubos. Aproximadamente a população da Região Metropolitana de São Paulo.

O pequenino cubo vermelho no vértice frontal seria apenas uma das 27 milhões de pessoas. Quem sabe, o(a) prefeito(a) do Município de São Paulo…?

 

 

O cubo sobre o qual esse cubo vermelho está apoiado contém mil cubos. O tamanho aproximado de uma equipe de apoio (assessores, secretários, consultores, etc.) que acompanha o(a) prefeito(a) à prefeitura. Como todos sabem, mas esquecem, o(a) prefeito(a) não governa sozinho(a). Como seria possível governar sozinho(a) 27 milhões (RMSP) ou mesmo 14 milhões (município) de pessoas?

 

O cubo total de 27 milhões contém, obviamente, 27 mil desses cubos de mil pessoas…

 

 

Não seria bom lembrarmos que a origem de um(a) candidato(a) (ou seja, sua filiação partidária) conta muito mais que sua personalidade, carisma (ou ausência dele), “dinamismo”, “vontade de trabalhar”, “experiência pessoal”… A equipe que entra na prefeitura com ele(a) acaba contando bastante mais: direciona sua leitura da situação, aponta soluções e articula seu agenciamento político.

 

Você ainda vota de acordo com a cara do(a) candidato(a)? Ou você vota pensando na capacidade da comunidade (partido) que dá suporte ao(à) futuro(a) prefeito(a)?

 Isolamento e Alienação

Será que já não somos assim?

 
Pod

 High Tech Orgânico

Reencontrei uma anotação que fiz na visita à exposição Brasil 500 Anos (a data é: 07/09/00, oito anos atrás!).

 

Expressa uma possibilidade estético-tecnológica sobre a qual venho debatendo com o grande amigo Marcus Del Mastro faz tempo: como seria um high-tech orgânico?, no qual todos os bens seriam fabricados com o mínimo de interferência sobre o meio-ambiente.

 

Na verdade, esse high-tech está conosco há muito tempo: lembrando a sofisticação de uma cesta Crená (esquerda, na imagem), que é capaz de utilizar princípios estruturais que foram elucidados, de maneira formal, apenas pela sociedade tecnológica ocidental (e ainda sequer foram aceitos de maneira geral).

 

Imagino uma situação em que a tecnologia de ponta seja indistinguível do ambiente natural…

 Santa Ignorância…

1 – Em geral, não acho legal ficar reclamando. Mas ontem, indo pra casa, estava ouvindo a Kiss FM… O que irrita, naturalmente, com a predileção daqueles locutores em ficar vociferando bobagens, enquanto você aguarda tocar alguma música mais-ou-menos-legal…

 

(Parece que, quando dizem “Não toque no seu dial!”, é o sinal: “mude de estação”.)

 

Enfim, comentaram a triste morte, por câncer, do Rick Wright (Pink Floyd). Frisaram que, apesar do Wright não ter escrito muitas canções da banda, compôs algumas muito importantes. Ainda, comentaram que brigou constantemente com Roger Waters — mas não mencionaram o principal motivo desse antagonismo: a egomania deste último.

 

Para coroar a seqüência de superficialidades e comentários dispensáveis, dedicaram uma música em homenagem a Wright: “Another Brick in the Wall” — canção do auge da egomania de Waters, do disco que saiu quase à revelia do resto da banda e, dizem, causou a dissolução desta… Sendo que a canção era daquelas compostas pelo Waters sem nenhum input da banda… Brilhante!!

 

Seria como homenagear os 28 anos da morte do John Lennon tocando “The Long and Winding Road” (Maccartney)…

 

2 – Recebi um catálogo da Pancrom, hoje. Como sempre, um showcase de tecnologia gráfica. Parabéns!

 

No entanto, mais uma instituição/empresa sucumbe ao que chamo de “citacionismo aleatório”: aquela citação de nomes, em geral, pouco conhecidos e com frases de efeito ou “sacadinhas”… No caso da revista da Pancrom, na primeira página, uma citação do Rush Limbaugh, radialista e comentarista de extrema direita norte-americano, famoso pela misoginia, preconceito, racismo, agressividade e desrespeito generalizado por minorias, divergências políticas e culturais. Em suma, um &*#@$%!!.

 

 A frase é um descalábrio.

 

3 – Há alguns anos, tinha notado a citação aleatória de Frank Zappa que a rede de restaurantes Braumeister insiste em publicar em seus jogos de sous plat. A tal citação insiste que: um país, para ser um “país de verdade”, tem que ter produção industrial de cerveja. A citação, fora de contexto, parece ser elogiosa à ancestral bebida. Mas Zappa queria aludir à cerveja como uma espécie de indutor ao colonialismo. Na origem da frase, sua autobiografia, Zappa dá continuidade à colocação quanto à importância da cerveja dizendo que os americanos enchem a cara do lúpulo, preenchem-se de entusiasmo alcóolico-patriótico, e decidem invadir algum país subdesenvolvido ou árabe (ou os dois). Zappa estava aludindo ao comportamento boçal do coletivo bêbado… E não às maravilhas da bebida… Zappa era abstêmio e não usava qualquer tipo de droga (só cigarro, que o matou de câncer). Era taxado de chato e preconceituoso.

 

O que tiramos disso: até mesmo Frank Zappa, descontextualizado, pode ser usado para vender cerveja…

 

Brilhante!! 

 

Me parece que, nos três casos, o que norteia as colocações e/ou citações é aquela embromação que expressa a demanda de algum executivo ou departamento de marketing que precisa “encher linguiça” para não parecer que o veículo em questão “não tem nenhum conteúdo”. Mas é isso mesmo: nossa cultura está prenhe de vazios preenchidos, como espaços vazios nas paredes que precisam ser enxertados de palha ou espuma…

 

 QR Code

QR Code generator

 Cozinha

Outro dia, fui a um bar com a Karin. Sentamos do lado da cozinha. Um dos bares na esquina da Aspicuelta com a Mourato Coelho. Todo o perímetro da cozinha é transparente: dá pra ver todos os tupperwares, saquinhos, embalagens. Pode parecer bagunçado, mas na realidade é bem interessante…

 Moinho de Vento

Estive em Holambra, essa semana, e fiquei pasmo com o moinho de vento que a prefeitura está construindo.

Quando cheguei, achei que era um moinho “cenográfico”. Quando percebi que a direção tinha mudado de um dia para o outro, percebi que o moinho “funcionava”. Me permitiram visitar a obra, ainda em acabamento (7 de julho).

A inauguração é neste sábado, dia 12 de julho.

 Uma segunda casa…

Durante anos hesitei em dizer que era minha 2a casa. Depois passou. É melhor aceitar o inevitável. Parti dessa 2a casa faz tempo…

 Dangerous Days

Acabei de ver o documentário “Dangerous Days”, a respeito da produção do filme “Blade Runner”, de Ridley Scott.

 

O que marca no documentário é a complexidade de uma produção dessa natureza. Especialmente naquela época – início da década de 1980. Todos os “efeitos”, como se falava, foram realizados em película, modelos, câmeras controladas por computador, etc. Toda a parafernália típica da era pré-computação gráfica. Fui fissurado nessa tecnologia, e lembro de horas de discussão com Tomás Duque Estrada, amigo de infância, a respeito das técnicas. Tomás seguiu esse rumo, fundando a Lobo e depois incursando pela Vetor Zero. Eu migrei para a Arquitetura, Design e projeto, deixando de lado o universo onírico das narrativas, animação, cinema e vídeo. Mas nasci e cresci no meio dessa comunidade.

 

Mas, o que ainda me impressiona, e vejo como a imensa contribuição do documentário, é a descrição da criação de uma peça que conheço de trás-pra-frente: cada cena, tomada, a narrativa (também me embrenhei no universo Philip K. Dick), os temas, etc. De onde tudo aquilo saiu? Como aquelas imagens foram geradas?

 

Pela minha formação conheço as principais referências, que também tornaram-se minhas: Syd Mead (“Visual Futurist”, diretor de arte de incontáveis produções da época, de Star Trek, passando por Tron, 2010, entre outros), Frank Lloyd Wright (apartamento de Deckard), Moebius e Bilal (todo o clima, imagética, temas visuais), etc. É possível que Syd Mead seja um dos maiores responsáveis pela imagem e composição do mundo industrial em que vivemos hoje. Mas isso requer outro post…

Mas a imensidão da produção, os becos-sem-saída, as lutas de bastidores pelo controle da produção, os falsos acertos, as contribuições “ad lib” (“… All those memories will be lost, like tears in the rain.”, de Rutger Hauer, improvisada na primeira leitura do roteiro.), a qualidade como conseqüência da perseverança.

 

Isso me lembra um livro que li quando ainda estava na faculdade: “The Complete Beatles Sessions”, a respeito, como o nome mesmo diz, das sessões de estúdio das gravações dos Beatles.

 

Comprei o livro por uma bagatela – lembro até hoje: 20 reais, na aurora do magnânimo “Plano Real” (1994). Ele estava largado em uma das prateleiras de uma livraria do Centro. Quem iria comprar algo com um tema tão técnico, e tão pouco glamouroso? Pois, fissurado em livros, e curioso com o que poderia estar escondido em um tomo como aquele, comprei o troço…

 

Valeu cada centavo.

 

O que se descreve ali é a trajetória de gravações de músicas como Strawberry Fields Forever, do álbum Seargent Peppers Lonely Hearts Club Band, o Álbum Branco, Hey Jude, etc. Na verdade, o livro acompanha todas as sessões, todos os dias, tudo o que foi gravado pelos Beatles, de 1962 a 1970. Pode parecer coisa de fanático – admito – mas é muito instrutivo. Lendas, quanto à improvisação total, e facilidade sobre-humana, são colocadas por terra: tudo o que foi feito é conseqüência de muito esforço, insistência, “cara-de-pau” em admitir incompetências e pedir ajuda (em geral ao produtor erudito George Martin). Fica claro que a genialidade dos 4 fabulosos foi decorrência da disponibilidade que tiveram para a descoberta constante de novas avenidas de expressão e não de “mentes ungidas pela graça divina”…

 

Somando o que se lê em “Beatles Sessions”, ao que está em “Beatles Complete Scores” (partituras completas, instrumento por instrumento, “tiradas” por um grupo japonês), pode-se perceber as imensas limitações com que a banda se deparou: boa parte das harmonias complexas, mais sofisticadas, dos últimos discos se deve à sobreposição de dois ou mais acordes em instrumentos diferentes, e não a um conhecimento de harmonia e contraponto mais elaborado, sequer à capacidade de “tirar” tais harmonias das influências eruditas que o grupo dizia ter na época. Músicas como “Sexy Sadie”, que parecem jazz ou bossa nova, em termos de harmonia e construção melódica, são, na verdade, sobreposições de acordes e a tentativa de manter-se em uma mesma grade harmônica; feita um pouco “às cegas” por Lennon, MacCartney e Harrison… Abordagem “hands on” que gerou um frescor nas gravações que certamente alcançou a platéia, mas passou completamente despercebida ao público erudito (e ainda passa): desde minha infância, meu irmão mais velho, Tiago, tem um livro, “Beatles Compleat”, compilação das harmonias simplificadas das músicas. Os escritores “tiraram” as canções com o ouvido de um músico de jazz ou erudito tradicional, tentando encontrar as grades harmônicas conhecidas, e não conseguiram compreender a abordagem de harmonias sobrepostas… Tudo soa como uma versão de “piano bar”, e não as estranhas e interessantes composições das canções como gravadas.

 

Uma coisa se tira dessas peças de análise de produtos da indústria cultural: nada sai do nada!! Tudo é fruto de tentativa e erro, de pesquisa, formal ou não, de envolvimento direto com a matéria em questão.

 

Quer inovar? Tente, e tente de novo, e de novo – até encontrar algo com que possa trabalhar. Construa um campo de referências, sendo elas suas próprias (suas próprias criações que se tornam referências posteriores), como dos outros (livros, filmes, produtos, idéias, conceitos, um certo modo de “falar”, “ouvir”, “criticar”…). Boa parte das inovações de Scott (Blade Runner) ou dos Beatles se deve à completa ignorância do que poderia ou não ser feito, de acordo com os cânones da indústria.

 

Isso me lembra de Modest Mussorgksy, muito criticado e mesmo ridicularizado pelos colegas russos: obras como “Quadros em uma Exposição”, ou “Noite no Monte Calvo”, ou ainda “Boris Godunov”, foram criticadas por não se conformarem aos preceitos da harmonia e composição como estabelecidos em fins do século XIX. É só comparar a orquestração de Rimsky Korsakov para “Noite no Monte Calvo”, e a orquestração de Ravel (já aberto às referências da música balinesa, jazz, e atonalismo) para “Quadros em um Exposição”, que fica claro o estrago que o establishment pode fazer a um conceito ainda nebuloso, em formação. Como é delicada a intenção honesta!: uma palavra dogmática, e pode-se por a perder a inovação, a vida que começa a surgir.

 

Outra lição: seja cabeça-dura. Não que se deva manter-se preso a um conceito estúpido, sem importa-se com o que digam. Mas é importante saber ater-se ao que te impeliu à criação: se Ridley Scott não fosse o cara arrogante e egomaníaco que é, ele teria cedido às pressões dos engravatados da Warner Bros. e teria destruído a visão que laboriosamente construiu com a ajuda de Mead, o departamento de arte do filme, Vangelis, Moebius, Bilal, etc. Os produtores e financiadores do filme preferiam retomar a visão “futurista” de um “Logan’s Run” do que arriscar-se por um set de filmagens caótico, inteiramente alheios às técnicas ainda em formação.

 Ironia

Desde 1984, com o lançamento do Macintosh, a Apple se promove como uma força contrária a uma espécie de obscurantismo tecnocrático, na época simbolizado pela IBM, depois mantida pela imagem corporativa da Microsoft, e mais recentemente colocando-se como a opção “cool” e melhor desenvolvida frente ao mundo Windows.A versão simplificada da emergência dos PCs, apresentada no filme “Piratas do Vale do Silício”, já levantava a proximidade ética entre IBM e Microsoft, o que não era óbvio na época em que os fatos relatados se passaram.

 

No entanto, me parece óbvio que uma simbologia bastante evidente passou despercebida. Na propaganda de lançamento do Macintosh, de Ridley Scott, uma atleta ariana arremessa um martelo (literalmente) contra a tela em que o “Grande Irmão” vocifera as palavras de ordem. Atrás de tela destruída, emerge o Mac, interpretado como o “antídoto” para a massificação desalmada característica do universo corporativo, que no discurso da época se identificava com a IBM.

 

Ora pois, me parece que mensagem era muito mais clara, e requeria ainda menos interpretação: o “Grande Irmão” É o Macintosh….!

 

Como assim? Veja só. O que está atrás da tela? Qual seria a alma do “Sistema”? Em uma interpretação quase naive – assim como o Mágico de Oz é um indefeso franzino que esconde-se atrás de uma máscara assustadora – a face aterradora do Grande Irmão foi substituída pela face amigável e “cute” do Mac.

 

Talvez não seja estranho que a imagem que a própria empresa (Apple) está associando ao seu mais recente sucesso seja similar a outra imagem há muito familiar. O iPhone está questionando profundamente o modo como utiliza-se computação móvel, e está demonstrando as possibilidades implícitas da Computação ubíqua. Certamente, esse produto será responsável pela confirmação da entrada da Apple no universo dos Information Appliances e da pervasividade computacional. Com produtos adicionais de software e provedoria, como o “Mobile Me”, a Apple passa a oferecer uma suite de serviços, equipamentos e suporte que marca o início da banalização de técnicas fundamentais da ubiquidade.

 

Ecoando a revelação do “pequeno irmão”, na propaganda de Scott de 1984, a imagem selecionada pela empresa para simbolizar, iconizar o iPhone é o botão “home”, muito similar ao olho eletrônico do computador HAL 9000, do filme 2001, de Stanley Kubrick. O computador central da espaçonave Discovery, que levaria os astronautas a Júpiter, resolve, por conta própria, que os seres humanos não seriam confiáveis para desempenhar a tarefa mais importante da missão: contato com uma civilização alienígena — e decide matar toda a tripulação. Ironicamente, o computador HAL 9000 era uma espécie de tutor da missão, onipresente em todas as seções da nave, sempre observando os seres humanos, e controlando as funções gerais. A imagem do olho eletrônico de HAL 9000 funcionava como uma espécie de “Grande Irmão” virtualizado: não é necessário que a face de um ser humano se apresente para o indivíduo vigiado e controlado, a presença amiga de uma inteligência superior se faz por meio de um olhar zeloso e nêutro.

 

Como torna-se óbvio, a neutralidade é impossível, e a inteligência superior da máquina é, antes de qualquer coisa, alheia a qualquer agenda humana.

 

A mesma ubiquidade de HAL 9000 na espaçonave/refúgio da humanidade, é aquela da telefonia celular em um futuro próximo em toda a superfície do planeta, o que Buckminster Fuller chamou de espaço-nave Terra.

 

 Aberto…

Primeiro post…

A imagem acima é uma panorâmica composta a partir de diversas imagens tomadas na Pedra Grande, em Atibaia (2003).